Hard Times

Por Bruno Bandido


Para Pedro e Paloma

Acordei ferrado no sofá de Cecília. Um menino careca encarava meu sono. Minha mãe foi na farmácia e falou pra você esperar, ele disse, Não posso ficar sozinho.
Quem é você?
Charles Bronson.
Seu nome é esse? Cê já tá sozinho.
Tô com você.
Quem é sua mãe?
Cecília.
Cê não devia ser mais escuro?

Meu pai era alemão, ele disse. Então era esse o moleque, Cecília havia me falado dele, tem algum tipo de câncer pelo que lembro. O que houve com seu olho? perguntou. Sou o novo escolhido de Cecília. Ela me colocou no circuito ilegal e organizado de lutas de rua da cidade. Ontem foi minha primeira vitória e, agora, ela diz que as apostas vão circular e vou começar a ganhar algum.

Você é lutador?
Nunca tinha me imaginado assim, lutador. Falei que era.
O senhor podia me ensinar? Tem uns meninos na escola, eles sempre fizeram piada do meu nome e quando voltei do hospital todos tinham raspado a cabeça também, a mãe disse que fizeram isso pra eu me sentir bem, que as professoras devem ter sugerido, uma ova, eu quero acabar com eles, de verdade, o senhor me ensina?
Não.
Por que?
Porque cê fala demais.
Ele ficou quieto. Não deu mais um pio até que Cecília chegasse. Ela é bonita. Tem uns quarenta anos e o rosto detonado pelo tempo, bunda larga, olhos tristes, sorriso espalhafatoso. O Charles te pediu pra ensinar ele a lutar?
O Bronson? Não é melhor dar uma gaita pra ele?
Gaita?
Deixa pra lá.
Ensina vai.
Já tô ensinando. Mandei ele ficar quieto.
Ela me convidou pra almoçar e começou a preparar a comida. Puxei assunto com o moleque. Quantos anos cê tem?
12.
Já beijou alguma menininha?
Não.
Já bateu em alguém?
Não senhor.
Já levou algum soco?
Muitos.
Cê parece ser muito popular.
Como assim?
Deixa pra lá.
O mandei ficar em posição de defesa, ele sabia o que era isso, o fato de ter levado alguns socos era a única coisa que lhe ajudava, era fraco e debilitado, mas sabia que não era de vidro. Na luta, cê sempre tem que tentar acertar o primeiro soco, eu disse, de preferência pegar o outro cara desprevenido, de preferência acertar no rosto, no meio do queixo, um bom soco no queixo pode derrubar qualquer um, quer ver? Dê um soco no meu. e ele soltou um uppercut de esquerda desajeitado e cheio de vergonha – teria muito o que aprender. Ok, não vou te ensinar a melhorar esse soco de bosta. Assista Domingo Maior e treine nas paredes ou sei lá. Cê costuma sorrir?
Quando eu acho algo engraçado ou bonito.
Engraçado ou bonito? Ok, tente não sorrir, muito menos nessa escola que cê odeia, não entregue teus gostos de bandeja pra eles, nem os teus dentes.
Cecília interveio da cozinha. Pode parar, pensei que tu ia ensinar ele a lutar, não a ser um desajustado igual ao pai dele ou igual a você. Acho que ela tinha me falado do pai do moleque na noite anterior, quando me levou pra sua casa. Pelo jeito, era mais um durão das lutas de rua, desajustado do mundo, tendo que cravar seu lugar na vida a base de muita antipatia e narizes quebrados. Ele morreu quando Charles tinha dois anos e, provavelmente, foi quem escolheu o nome do moleque. Talvez ela tivesse razão, eu devesse ensiná-lo apenas a se defender e não a ser um filho da puta de caráter tão torto como os dentes. Mas ela pediu pra que eu o ensinasse e isso era só o que eu podia fazer.
No meio do almoço o garoto se levantou, correu ao banheiro e vomitou. Cecília culpou o tratamento. Disse que confiava em minha vitória na próxima semana pra conseguir pagar um médico. Eu não gostava que ninguém dependesse de mim, nem eu dependia mais de mim, não tinha ninguém, não tinha nada, não queria aqueles dois na minha vida, mas eu tava ali no meio porque foi o jeito mais fácil de apenas continuar e o fato de apenas continuar sem muita ambição não devia trazer responsabilidades do tipo pagar o médico do garoto com câncer, mas trouxe – levantei da mesa, subi as calças e mandei Cecília limpar a boca do moleque porque a gente ia sair pra tomar um sorvete.

Foi um dia agradável e isso me assustou. Lembrei de minha ex-mulher e minha filha, houve um tempo em que quase fomos felizes, mas estraguei tudo. Tenho uma espécie de alergia à felicidade familiar, fico tonto e cheio de náuseas e então caminho pela cidade e é como se os bares e encrencas e putas e vendedores sujos de churrasquinho de gato me chamassem pro lado deles. De noite, depois que Bronson dormiu, agarrei a bunda de Cecília e tentei beijá-la, ela me empurrou pro sofá e foi dormir e eu fiquei pensando que preciso ganhar mais lutas e descolar um quarto. Quando acordei era segunda-feira e não tinha ninguém em casa, meu olho continuava roxo mas não doía, meu corpo só doía por causa do sofá, caminhei um pouco, entrei no quarto de Bronson e me deitei na cama.
Ele voltou da escola com o nariz sangrando. Disse que não riu de nada, que ficou quieto no seu canto e, quando um dos meninos carecas solidários veio perguntar como ele tava, ele seguiu quieto, então juntaram mais dois ou três carecas na sua volta, ele não falava nada, de repente, uns oito meninos estavam em sua volta perguntando se ele tava bem, eram os mesmos meninos que tiravam onda com seu nome, Bronson seguiu quieto, perguntaram se ele tava maluco, se ele tava morrendo, ou se não conseguia mais falar, ele levantou e deu um soco no queixo mais próximo mas não chegou a derrubar ninguém, levou um no nariz e uma rasteira e caiu de bunda no chão.

Mandei ele se limpar no banheiro, ele foi e depois vomitou também. Me sentei na sala quando o moleque começou a socar as paredes, ele tava batendo forte demais, eu disse que pegasse leve, ele não pegou – não socava fazendo força com os ombros, apenas com os braços, isso não derrubaria ninguém, expliquei, mostrei uma posição, ele seguiu batendo forte e desajeitado até que uma hora se feriu e resolveu parar e sentar ao meu lado. Eu queria sair pra dar uma caminhada, só que ele não podia ficar sozinho, embora nós dois estivéssemos assim, sozinhos, Cecília ainda levaria umas duas horas pra vir e preparar o almoço. Continuamos sem falar nada até que ela chegasse.



bruno b.
http://brunobandido.wordpress.com

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