Por Astier Basílio
Por baixo do capuz, tentei localizar uma fresta.
Algum sinal de que era noite ou dia.
Quando a porta se abriu, reconheci o barulho das botas. Se eu me aprumasse, os punhos doíam.
“Estou pensando em morar aqui…”.
Descobri que estava em um cubículo, porque acompanhei sua respiração. Era como se, por mais que circulasse, não saísse de perto de mim. Ficamos um tempo assim: eu pressentia que ele estava ao meu ouvido. Eu respirava aquela ameaça. Não sei como ele conseguiu alcançar tamanha delicadeza com a voz quando me disse:
“Não existe lugar melhor no mundo para esconder um cadáver do que a Bolívia”.
Coloquei diante dele os números todos. A maneira de como fazer o pagamento. O cimento se desfazia com as batidas, ele devia estar com um bastão. Algo perfurava o chão. Acho que ele ria.
“Eu leio jornais, Alípio” – o chão cedeu alguns buracos enquanto ele falava – “Sei que você recebe seis paus por mês. Dá pra viver bem, mesmo com alguém como você, com os seus luxos…”
Era inútil qualquer protesto. Eu sabia. Queria saber com quem estava lidando. Por esta razão que joguei algumas palavras em cima dele, falei de dignidade. Fui interrompido. Ele não era um simples empregado. Eu o tinha subestimado. Achei engraçado ele tentando me imitar.
“… um português, me sinto mais brasileiro do que muitos que nasceram aqui, não tive prata nem ouro, mas o que eu tive eu doei ao povo e à sua causa, a minha vida…”
Os silêncios eram longos e perfurados. Era como se ele arrancasse minhas unhas.
“Alípio, acompanhar suas conferências, ler seus artigos e… ter acesso aos seus e-mails, não me fizeram descobrir, apenas, suas contas em sites não muito, como eu digo?, católicos… mas, o principal desta ação toda, me fizeram descobrir como você fala, quais suas palavras preferidas…”.
Argumentei que, no mundo e na vida, tudo tinha um propósito. Antes que eu citasse o versículo, a voz me interrompeu com um riso. O primeiro dele. Ao menos parou de escavar. E recitou:
“Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai”.
Ouvi o barulho da cuspida. Imaginei que haveria barulho de isqueiro. Fumaça invadindo o ambiente todo. Quem sabe ele não me oferecia o cigarro?
Não podia mais subestimar meu inimigo.
Ou amigo.
Quis saber se poderia fazer uma pergunta.
“Não arranquei sua língua”.
Descobri, da pior forma, que as paredes eram revestidas de azulejo. Ele pegou o bastão com um prego na ponta de novo.
“… ainda”.
Entendi o recado. Era um dos nossos. Algum louco. Algum frustrado. Eu tinha que falar a língua dele. Entrar no delírio dele. Deveria adivinhar a razão de tudo, o ponto zero dele. Quedas de aparelhos? Das cinco vezes em que cai, segurei no tranco ao menos duas semanas. Quando dei o serviço, a rede já tinha caído. Não era por isso.
“Eu…”
Jogou o bastão no chão. Me encolhi pensando que seria atingido.
“… queria pedir a você que…”.
Um líquido agora era agitado em uma garrafa. Tive vontade de pedir a ele que me desse de beber.
“Bem… Queria que você, como um sacerdote, me perdoe…”.
Balancei a cabeça. Não. O problema não é perdoá-lo, eu disse a ele. Vocês, os crentes, se acreditam sem intermediários, com acesso direto a Deus. Ele tirou a minha venda. Sim. Era ele.
“Bronson”.
Fazia muitos anos que alguém não me chama assim, ele me disse. Percebi que pintou o cabelo. O bigode era recente.
“Pensei que você tivesse esquecido o passado, Bronson. Quando me contaram, eles acabam contando tudo. Mesmo morando em Portugal. Ninguém acreditou. Acredita que pedi a um amigo, que tinha ido passar férias em João Pessoa, que fizesse uma foto sua no culto lá da igreja. Como é o nome, mesmo?”.
Ele me respondeu. Fuzil entre os braços cruzados. Com vagar e vigor. Pronunciou as sílabas como se saboreasse: Igreja da Bênção do Varadouro.
Senti pena quando olhei para aquele velho com bigode ridículo, uma paródia do que fora. “Acho, Bronson, que você merece o meu perdão, sim. Eu te perdôo”.
Ele me disse que ironia era uma figura de linguagem não muito apropriada para alguém na minha situação.
“Sempre que não gostar do que eu disser, vai me bater?”.
Bronson disse que não queria me enterrar à noite. Que era melhor encaminharmos as questões. Perguntou como eu queria morrer.
“Em homenagem ao chão que estamos…”, Bronson tirou uma garrafinha de Jack Daniels do bolso e me ofereceu. Eu aceitei. Pedi que ele derramasse o scoth devagar. Ficou me encarando enquanto eu concluía a frase. “… Quero morrer como o Coronel Cornélio Rojas…”.
Pensei que ia me dar outro tapa, mas sorriu. Bronson, puxou uma cadeira, virou-a de costas. Disse que era uma boa escolha, a minha. Que não seria nada mal para mim, morrer no mesmo chão em que estava enterrado Che. Fez uma pausa. Mas da forma como Che mandou um oponente ser fuzilado, concluiu.
“Sempre imaginei, o velho Rojas, antes de morrer, pedindo ao Comandante…”, Bronson me interrompeu e, rindo, disse que o Comandante era conhecido por sua generosidade. “Pois é”, concordei. “Sempre imaginei que o Comandante teve um gesto de ternura. Talvez ele tenha criado a famosa frase ali, em Santa Clara. Deixar que o Coronel Cornélio Rojas morrasse fazendo o que sempre fez em vida: mandar. Foi lírico”.
Bronson me corrigiu: mandar não. Cumprir ordem. O último pedido de Rojas foi o de cumprir uma ordem. Mesmo que tenha sido do Governo Revolucionário. Mesmo que tenha sido a ordenamento do pelotão do seu próprio fuzilamento. Ele pediu para fazer o que sempre fez em vida. Obedecer.
“Por que está esvaziando as balas do fuzil?”.
Sem importar-se em me responder, Bronson me contou que, em 1973, a parte traseira de um fuzil automático leve, a culatra, começou a ser feita com vários tipos de metal. Reduzir custos, ele limpou o suor enquanto argumentava. Peso. O importante, Bronson continuava, alisando a coronha, é que em 1970, ainda era feito de aço.
“Capaz de afundar o crânio de alguém”, eu adivinhei onde ele queria chegar. Bronson riu, falou: bom menino. A vantagem, Bronson continuou falando, e Lamarca sabia muito bem disso, é que não causava nenhum barulho.
“Bronson…”, ele estendeu a mão e me pediu que não o chamasse mais assim, “como quer que o chame?”.
Ele falou que não queria mais que o chamasse de modo nenhum, a conversa estava no fim.
“Estou no fim de qualquer forma. Algumas das poucas coisas que me interessam na vida estão em suas mãos”.
Testando, no solo, a culatra do fuzil, como se o amaciasse, Bronson falou que não tinha tocado no meu dinheiro.
“Não falei disso”, ouvi o barulho de outro carro chegando. “Podemos fazer um bom acordo”, Bronson não disse nada, continuou me olhando forte.
“Não precisa confiar em mim”. Bronson disse: eu não confio em você. “Tenho como fazer as movimentações todas sem deixar rastro”, Bronson riu. Os olhos dele ficaram mais verdes. “Acredite, eu ainda sei como fazer… Minha conferência no Fórum é amanhã, Bronson”.
Ele atirou no meu pé, gritou que não era para chamá-lo mais assim, e foi até lá fora. Imaginei que estávamos em um sítio. Voltou com dois galões de gasolina. Começou a molhar o barraco todo. A borrifar em mim. Falou em ternura, do seu bolso, tirou um lenço, empapou no líquido, encharcou minhas barbas.
“Por Deus, tenho 200 mil na minha conta”, Bronson parou, limpou o suor do rosto com a manga da camisa. Disse: Padre, o senhor não precisa levar mais este pecado consigo. Jogou o que sobrou dos galões na minha cabeça. Mentiu dizendo que ainda resta, pelo menos metade do milhão da sua indenização. Balançou a cabeça e mentiu de novo, desta vez fazendo insinuações. Disse: Deus, como esses meninos de hoje são caros.
Bronson pôs o capuz novamente em mim.
“Matar um ex- padre não é blasfêmia contra o espírito santo, é?”, ele me perguntou. Permaneci em silêncio.
“Vamos lá. Por mais que eu tenha me esforçado e, Deus sabe disso, eu me esforcei, nunca vou superar os seus anos de seminário. Sua formação em teologia”.
Bronson refez a pergunta, dessa vez eu respondi, balancei a cabeça dizendo que não.
“Na semana que eu bolei o plano todo, Alípio… você poderia ter, sei lá, desconfiado um pouco mais”, puxou uma fotografia da carteira. Riu. Eu ri também.
“Seria uma farra e tanto, hem?”, Bronson agora tirava os meus sapatos, as meias e ensopava os meus pés com gasolina.
“Um último comentário: você está em alta com o pessoal do Fórum? Passagem e hotel, para acompanhante dois dias antes do evento começar”, pedi a Bronson que terminasse logo com tudo.
“Ok, tudo bem, concordo que meninos de 16 anos não podem ser considerados crianças… Aliás…” – Bronson tirou colocou umas notas no meu bolso
“Aqui: o dinheiro que você depositou na conta dele, quer dizer, na minha… Não quero seu dinheiro”.
Fiquei me mexendo, queria cair no chão, quebrar a cadeira com meu corpo, tentar uma fuga, levar um tiro, acabar logo com aquilo, Bronson me conteve.
“Ontem, sabe qual foi o tema da minha homilia, padre?”, ignorei a pergunta até que ele me bateu com a coronha do fuzil, ele me perguntou de novo, murmurei algo, ele me respondeu qual foi o assunto do sermão dele: “a parábola do talento. E, não sei se te aconteceu, Alípio, alguma vez, no altar… Enquanto eu pregava para o povo, para as ovelhas, Deus falava comigo… Eu não podia enterrar o meu talento. E o meu talento…”, Bronson puxou uma caixa de fósforos do bolso e sacudiu-a próximo aos meus ouvidos, “… o meu talento é matar”.