China

Por Tadeu Sarmento

Temos apenas duas certezas na vida: a primeira é a de que Deus encarna; a segunda, a de que Charles Bronson desencarna. Que, quando desencarna,Bronson queima no cano da Magnum todos os carmas do recém-desencarnado, enviando-o direto para o sexto empíreo, é a terceira certeza que temos na vida. Mas as duas principais já foram ditas.
Todas as demais certezas envolvem o que Bronson é capaz de fazer. Tanto que, quando faraó pecou, foi a Bronson que Deus enviou para matar os primogênitos egípcios. “Anjo da morte” é como Deus, carinhosamente, o chama.
Parece que tudo começou quando, criança, os coleguinhas (que Deus os tenha) do colégio o apelidaram de “China”. Este ódio que sente pela humanidade começou a acumular daí. Porque Bronson não é chinês, mas paraguaio. Se usasse chapéu, não o retiraria nem para coçar a cabeça. Eu disse se usasse.
“Fala China” – cumprimenta-lo assim hoje em dia é pedir para morrer. Paul Kersey certa vez o chamou assim e foi enviado queimando etapas até o sexto empíreo. Bronson não perdoou o próprio personagem. Reza a lenda que Kersey morreu de biquíni.
A vida é uma limitação linear. Seu limite é Charles Bronson, que também não gosta que o chamem de japonês, coreano, filipino, ou vietnamita. Bronson é paraguaio, o que equivale a dizer que a morte é paraguaia. Tanto que, se Sansão matou mil homens com a queixada fresca de um jumento, Bronson matou dois mil jumentos com a queixada de um fresco (estava fresco quando a polícia chegou).
Bronson nunca se dirigiu ao balcão de informações. Prefere torturar alguém para consegui-las. Ao que tudo indica parece divertido para ele. Seu principal método de tortura é fazer cócegas na sola do pé de alguém com seu tímido mustache a Toshiro Mifune – que Bronson não nos ouça. De qualquer modo, não foi no balcão de informações que ele conseguiu o paradeiro de Ahasverus.
Charles Bronson fica 24 horas por dia de pau duro. Talvez por isso precise matar. Para sobrar mais espaço para ele e seu pau duro. Seu pau duro? Ele o chama de Charles Bronson. Pois cada parte de Bronson é um Charles Bronson total.
“Rapaz, como te chamas?”.
“Antônio”.
“Quis dizer: como te chamavas?”.
Clic-bang-clic-bang.
Para quê diálogos bem construídos se tudo acabará com a morte? De resto, Bronson prefere os silêncios, pois neles o homem se vê obrigado a lidar consigo mesmo. E a quem não consegue lidar consigo mesmo, Charles Bronson oferece uma mãozinha – com um dedo no gatilho de sua Magnum, que é tão grande que Bronson não precisa de porte de armas para manuseá-la, mas de carteira de motorista.
Eu não queria escrever este conto. Esperava que um homem que conviveu com Bronson se encarregasse de contar esta narrativa. Esperei por quinze anos. Mas agora Paul Kersey está morto, e eu mesmo temo por minha vida. Não que ela valha muita coisa, mas, mesmo não valendo, terminei apegando-me a ela.
Pois só Kersey sabia o que acontecia depois das filmagens de Desejo. Que, depois que as luzes se apagavam, Bronson chegava em casa, e que sua casa era cheia de pôsteres de Toshiro Mifune. Não que Bronson fosse de fato chinês, isso não. Bronson é paraguaio. Daí seu desejo secreto de ser um Toshiro Mifune paraguaio.
Falemos honestamente, pois se a crueza é um desvio no estilo, a hipocrisia é um desvio na conduta.Que Bronson fez testes para o papel principal de Rambo, o qual perdeu para Stalone porque, fisicamente, se assemelhava mais aos inimigos. Sabemos que Cassavetes quis Bronson em um de seus filmes monótonos, cheios de diálogos intermináveis. Bronson só apareceria no final, para acabar na bala com uma discussão de duas horas e meia. Porque Bronson detesta padedês, mas recusou o convite por estar cansado de matar figurantes.
Pois tudo o que Bronson queria agora era filmar com Akira Kurosawa.

Bronson

Por André de Leones

Tudo isso aconteceu há muito tempo, logo depois que o meu pai foi negociar umas cabeças de gado lá pros lados do Kansas seguindo pela Trilha de Chisholm e acabou morto a bala num acontecimento que a minha mãe chamou de “história muito mal contada”. Acho que o pior de tudo, pior até do que o meu pai morrer de um jeito assim tão estúpido, foi a gente nunca ter podido ver o corpo e se despedir dele de maneira apropriada e, claro, enterrar o homem sob os nossos narizes. Quando alguém morre assim, à distância e sem que se possa velar o corpo e dizer adeus, fica faltando alguma coisa para os que ficaram, feito uma conversa interrompida com violência sem que a última palavra, não importa de quem venha, seja dita. Acho até que a gente é assombrado pelo resto da vida por aqueles de quem não pôde se despedir direito. Quem veio nos dar a notícia foi o sr. McGee em pessoa, e é como se eu ainda pudesse ver os quatro homens, ele e três capangas armados com rifles Spencer, montados em seus cavalos junto à cerca e dizendo para mim e para a minha mãe, “Sinto muito”, mas estava claro que não sentiam porcaria nenhuma, estava escrito nas fuças deles, não sentiam nada, e que espécie de gente vai dizer para uma mulher que ela ficou viúva e para o filho dela que ele agora é órfão levando consigo três capangas com rifles Spencer e sequer tem a delicadeza de apear dos cavalos e tirar os chapéus? Ele contou que o rancheiro que tinha ido com o meu pai negociar o gado, o sr. Burdette, voltou naquela manhã do Kansas dizendo que, durante um carteado num saloon de Abilene, as coisas se precipitaram (foi essa a palavra que o sr. McGee usou), alguém fez ou disse uma coisa que não devia, o outro respondeu e daí a senhora já viu, homens sacando armas e atirando por conta de duas ou três palavras mal escolhidas. “O mundo é um diabo de lugar perigoso”, disse o sr. McGee e cuspiu de lado, quase acertando a bota do capanga que estava à sua direita. Sem tirar o chapéu, ele repetiu que sentia muito, muito mesmo, que agora as diferenças que ele tinha com o meu pai não importavam mais, e que o meu pai era um bom sujeito, um sujeito dos mais decentes, e que era uma pena ele ter se deixado levar daquele jeito, e agora a mulher dele era viúva e o filho dele ia crescer sem o pai, que o Deus Todo-Poderoso nos protegesse. Ele disse essas coisas todas olhando não para mim ou para a minha mãe, mas por sobre as nossas cabeças, para o rancho atrás de nós e a fumaça que saía pela chaminé, e depois se aprumou na sela, endireitou o corpo e só então me encarou, embora não falasse comigo, mas com a minha mãe: “Mas talvez essa desgraça toda seja pro bem. Talvez a senhora tenha a cabeça no lugar a aceite a minha oferta. A senhora sabe, todo mundo sabe, é uma oferta justa. A senhora pode pegar esse dinheiro e levar o garoto prum lugar mais tranquilo, daí ele cresce em paz e quem sabe até não estuda pra virar um doutor ou coisa parecida, não?”. Ele disse essas coisas e não esperou resposta, foi logo indo embora com os capangas, cavalgando cada vez mais rápido. Minha mãe ficou um bom tempo ali junto à cerca, sem se mexer, olhando fixo na direção que o sr. McGee e os capangas tinham tomado, como se adivinhasse o nosso futuro nas formas que a poeira levantada pelos cavalos assumia. Ela não parecia triste ou com raiva. Tinha no rosto a mesma expressão dura, de quem sempre espera pelo pior porque o pior é só o que vem. Quando falou comigo, não se virou: “O que é que você está esperando pra dar de comer aos porcos? Seu pai se levantar da cova em que meteram ele lá no Kansas e vir aqui te dar uma surra?”.

Dei de comer aos porcos. Quando entrei em casa, a janta já estava na mesa. Minha mãe estava sentada junto do fogão com os braços cruzados e toda encolhida. A lenha crepitava. Pensei que ela estava chorando e fiquei parado, sem saber o que fazer. Eu mesmo vinha sentindo vontade de chorar pelo meu pai, mas era como se não fosse verdade, como se ele fosse entrar pela porta a qualquer momento. Muito ruim não velar, não enterrar, não se despedir. Muito ruim. A cabeça dela pendia para um lado e, quando vi que não chorava, pensei que talvez estivesse cochilando. Tentei me lembrar de quando tinha visto ela cochilar assim, mas não consegui. Acho que nunca vi a minha mãe sequer dormindo. Sempre acordada, andando de um lado para o outro, cuidando do que quer que fosse. Agora, ela não se mexia. Talvez estivesse morta. Ela e meu pai, então. Junto com ele. Abri a boca para dizer o nome dela, mas o som de um cavalo se aproximando fez com que levantasse a cabeça. “E agora o quê?”, resmungou descruzando os braços. Era o sr. Burdette, logo posto para dentro. Ele se sentou com a gente, mas tratou de recusar o jantar dizendo que estava gordo demais. De fato, sua barriga parecia maior a cada dia, como se estivesse esperando um bebê. Aceitou uma caneca de café e contou o que tinha acontecido lá no Kansas, ressaltando não estar presente no momento da briga e confirmando a versão do sr. McGee. Minha mãe, então, perguntou onde é que ele estava quando se deu a confusão. “Cuidando dos cavalos. A gente revezava. Ele cuidou na noite anterior, então eu devia cuidar naquela noite.” “Você ficou cuidando dos cavalos e ele foi jogar cartas?” “Foi, sim, senhora. E, como eu disse, eu não estava lá, mas quem estava disse que foi tudo muito estranho.” “Estranho? Estranho como?” O sr. Burdette respirou fundo e olhou para mim como se me visse pela primeira vez. Arregalou os olhos por um segundo, como se estivesse assustado com a minha presença. Na verdade, foi só então que, ao prestar atenção em mim, ele se deu conta do tamanho da desgraça. “Ai meu Deus”, suspirou. “Estranho como?”, minha mãe repetiu. “Bem”, ele se recompôs, “o sujeito com quem ele estava jogando, um dos sujeitos, um camarada que depois, bem, ele, esse sujeito era um forasteiro e não era boa coisa, não, senhora.” “Por quê?” “Ele trapaceava e provocava todo mundo, mas principalmente o nosso amigo. E o pessoal que estava lá, que acompanhou tudo, ficou dizendo depois que ele fazia isso como que de propósito, sabe? Como se tivesse ido lá só pra fazer isso e puxar briga.” “E o que foi que aconteceu depois?” “Bem, ele aguentou até onde deu. Eu estava lá fora e só ouvi os tiros.” “Quantos?”, perguntei. “Três tiros. Seu pai deu o primeiro e errou. Ele nunca foi pistoleiro, né? Nunca foi bom nisso. Ele deu o primeiro e errou e levou os outros dois tiros.” As mãos da minha mãe estavam sobre a mesa e tremeram. Ela escondeu as mãos.

Chegou na manhã seguinte. Se a minha mãe rezasse, eu diria que ele era uma resposta às preces dela. Mas ela não rezava, nunca. Eu estava pegando um pouco de lenha e a minha mãe estendia uns lençóis enquanto provavelmente matutava sobre o que o sr. Burdette tinha dito na noite anterior ao se despedir. “Acho que vocês deviam aceitar a oferta do sr. McGee”, ele disse, “pegar o dinheiro e recomeçar a vida noutro lugar.” Ele falou essas coisas logo depois de colocar a parte que cabia ao meu pai pela venda do gado em cima da mesa e se levantar reclamando da coluna, “Estou velho e gordo demais pra fazer essas viagens”. A gente só deu pela presença dele quando já se aproximava da cerca. Parou e olhou para mim e depois para a minha mãe. Tinha uns olhos estreitos, como os de um chinês, e a cabeça redonda. A imundície de suas roupas e de seu corpo denunciava o quanto tinha viajado, e eu não teria ficado surpreso se ele dissesse que vinha desde o outro mar, no leste. Como se conhecesse ele, como se ele fosse um parente distante passando para uma visita, minha mãe se aproximou e disse para ele apear, que ele se lavasse e comesse alguma coisa, o cavalo também precisava de um descanso. Fui dar de comer ao cavalo enquanto ele a minha mãe ficaram de conversa ali junto do tanque. Vi ele mergulhar a cabeça na água e ouvi qualquer coisa sobre o meu pai e as terras. Minha mãe falava daquele jeito dela, bem direto, sem enrolar, e eu pensei que estivesse oferecendo trabalho ou coisa parecida. Ouvi ela dizendo “vinte dólares” e homem dizendo “não, senhora”. Foi a única coisa que ouvi ele dizer. Tirou a camisa e jogava água nos ombros e no peito. Minha mãe falava e falava. Acho que nunca vi ela falar tanto. Levei o cavalo para os fundos antes que ela me visse por ali e ralhasse comigo. Quando, duas horas depois, a gente se sentou para almoçar, perguntei qual era o nome dele e de onde vinha e minha mãe disse que eu deixasse o homem em paz, ele estava cansado e não precisava de mim e das minhas perguntas. Como se não tivesse ouvido ela, o homem disse que seu nome era Bronson e vinha lá da Pensilvânia, do Condado de Cambria. Eu não sabia onde ficava a Pensilvânia, mas com certeza ia procurar no mapa que o velho Holmes tinha pregado numa das paredes do armazém na próxima vez que fosse até a cidade. Eu queria perguntar mais coisas, para onde estava indo, se sabia o que tinha acontecido com o meu pai, o que a minha mãe tinha falado, se ele ficar com a gente e ajudar na lida, se o rifle preso na sela do cavalo dele era um Winchester, mas fiquei calado, não queria que a minha mãe ralhasse comigo outra vez. Quando a refeição estava perto do fim, ouvimos o velho som de cavalos se aproximando. Minha mãe repetiu o que tinha dito na noite anterior: “E agora o quê?”. Eram os três capangas do sr. McGee. Minha mãe, o sr. Bronson e eu saímos da casa, o sr. Bronson um pouco atrás, as mãos assim bem junto do corpo: eu não vi quando, ao se levantar da mesa, ele alcançou e recolocou o cinturão com as duas pistolas Colt que tinha deixado no encosto da cadeira, pendurado. Os três sujeitos olharam para o sr. Bronson e mediram ele e depois se entreolharam. Um deles se adiantou e perguntou para a minha mãe, sem tirar os olhos do sr. Bronson, se ela tinha alguma resposta. “Resposta pra quê?” “O sr. McGee quer saber”, o sujeito se limitou a dizer. Minha mãe não disse nada. O sr. Bronson deu um passo adiante e parou junto dela. Os três sujeitos se entreolharam de novo. O ar estava parado, sem vento nenhum. O mesmo sujeito que tinha falado com a minha mãe agora se voltou para o sr. Bronson: “Qual é a sua história?”. “Nenhuma”, o sr. Bronson respondeu. “O que é que você quer por aqui?” “Nada.” “Pra onde é que vai?” “Oeste.” “Aqui é o oeste.” “Mais pro oeste.” “Não tem mais nada pra lá.” “Dizem que tem.” “Vai se jogar no mar?” Os três caíram na gargalhada, mas foi um riso nervoso, atravancado. O sr. Bronson ficou ali parado na frente deles, como se esperasse que os três parassem de rir e fizessem alguma coisa. Eles pararam de rir. Os cavalos parece que adivinharam o que estava por vir, porque relincharam bem alto e deram uns passos para trás. “Vai pra dentro”, minha mãe disse para mim enquanto o sr. Bronson tomava a frente dela com um passo decidido. Ela veio para junto de mim e me empurrou para dentro de casa e depois entrou também. “Quer acabar como o marido dela?”, ainda ouvi um dos sujeitos perguntar. O sr. Bronson não respondeu.

André de Leones (Goiânia, 1980) é autor do romance “Dentes Negros” (Rocco), dentre outros. Mantém o blog http://vicentemiguel.wordpress.com/

Domingo Maior

Por Diego Moraes

Walter

Oi Charles.

Charles

Tudo bem.

Walter

Alguém já disse que você é o veado mais feio da cidade?

Charles

Não.

Walter

Não sei da onde tira para pagar as contas.

Charles

O segredo deve ser o bigode grisalho.

[Walter soltou uma risadinha dublada e voltou para sua página de esportes. O céu lá fora continuava doce como uva e crianças corriam como se o asfalto estivesse lotado de pôneis e asnos]

Frank

Pegou alguém?

Charles

Já estou velho demais pra essas coisas.

Walter

Nem mesmo um garotão assoviou?

[“Já chega tenente Walter!” gritou o chefe do departamento fazendo sinal para Charles]

Chefe

Não liga para esses calhordas, Charles.  Você é o homem do nosso departamento.  Alguma novidade no caso?

Charles

Só sei que o cara veste-se de mulher e agencia garotos de programa na boate Fênix.

Chefe

Já é um caminho.

Charles

Preciso usar essa roupa mesmo?

Chefe

Só assim entra na garganta do diabo.

Charles

O que o diabo tem a ver num antro de veados?

Chefe

Ele cospe fogo.

Charles

Não tenho mais saco para esse tipo de coisa.

Chefe

É seu ultimo trabalho, Charles. Logo estará de sunga tomando água de coco numa praia do caribe.

Charles

Deus te ouça. Sentirei falta do departamento.

Chefe

Todos nós sentiremos.

Charles

Preciso de café e umas torradas.

Chefe

Vá pra casa. Tome um banho. Descanse e reze para o prefeito não demitir a gente.

Charles

40 anos de policia e somos obrigados a agüentar uma bicha matando e pendurando michês em postes como se a vida fosse adereços de carnaval ou propaganda política.

Chefe

O ultimo garoto pregado no poste estava cheio de desenhos angelicais e poemas do Rimbaud no peito. Os lábios cheios de batom vermelhão e uma cartola.

Charles

Tudo certo. Vou apagar por três horas e depois termino o serviço.

Chefe

Vai com Deus.

[Charles acende um cigarro e deixa-o descansando no canto da boca. Para na frente de uma loja de discos e fica olhando peixinhos dentro de um aquário escrito “Beatles”]

Charles

Quero os peixes.

Atendente da loja de discos

15 mil dólares.

Charles

Tá brincando?

Atendente da loja de discos

Não brinco com negócios.

Charles

Também, não. O que há de especial neles?

Atendente da loja de discos

Nada em especial. São apenas peixes.

Charles

Então porque 15 mil dólares?

Atendente da loja de discos

Paul McCartney urinou neles em 1987.

Charles

Foda-se.

[Atendente sorriu feito uma beterraba colhida no verão. Charles sentiu vontade de socá-lo, mas preferiu respirar feito búfalo e segurar a onda. Há duas quadras estaria deitado em sua cama fedendo a boceta de anteontem]

Porteiro do prédio

Como vai senhor, Charles? Suas correspondências…

[Estrelinhas. Falta de ar. Ronco de cueca samba canção]

“O que é um veado cuspindo fogo?” Pensa Charles botando munição no revolver. “É só juntar as pistas” Ajusta o coldre. “O que é um diabo cuspindo fogo dançando poperô numa boate gay?” despeja leite na caneca.

[Noite. Todos os cães são drogados. Faróis. Putas fazendo charme. Gorilas na portaria da boate]

Gorila da portaria

Cadê o convite?

Charles

Sou amigo do dragão.

Gorila da portaria

Qual é a senha?

Charles

“Cospe fogo”.

Gorila da portaria

Ótimo. Divirta-se.

[Três garotas se beijando no meio da pista. Fumaça com cheiro de chiclete. Tigre preso numa jaula dançando com garotos fazendo strep tease]

Charles

Odeio veadinhos.

[Tiros e explosões. Dragão em suas mãos. Jornalistas e carros de policia. Abraço do chefe e sorriso do prefeito. Sobem os créditos do “Domingo Maior”]

Diego Moraes (Manaus, 1982) É autor de “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (Editora Bartlebee), Adestra ursos e lapida poemas no seu http://ursocongelado.tumblr.com/

Hard Times

Por Bruno Bandido


Para Pedro e Paloma

Acordei ferrado no sofá de Cecília. Um menino careca encarava meu sono. Minha mãe foi na farmácia e falou pra você esperar, ele disse, Não posso ficar sozinho.
Quem é você?
Charles Bronson.
Seu nome é esse? Cê já tá sozinho.
Tô com você.
Quem é sua mãe?
Cecília.
Cê não devia ser mais escuro?

Meu pai era alemão, ele disse. Então era esse o moleque, Cecília havia me falado dele, tem algum tipo de câncer pelo que lembro. O que houve com seu olho? perguntou. Sou o novo escolhido de Cecília. Ela me colocou no circuito ilegal e organizado de lutas de rua da cidade. Ontem foi minha primeira vitória e, agora, ela diz que as apostas vão circular e vou começar a ganhar algum.

Você é lutador?
Nunca tinha me imaginado assim, lutador. Falei que era.
O senhor podia me ensinar? Tem uns meninos na escola, eles sempre fizeram piada do meu nome e quando voltei do hospital todos tinham raspado a cabeça também, a mãe disse que fizeram isso pra eu me sentir bem, que as professoras devem ter sugerido, uma ova, eu quero acabar com eles, de verdade, o senhor me ensina?
Não.
Por que?
Porque cê fala demais.
Ele ficou quieto. Não deu mais um pio até que Cecília chegasse. Ela é bonita. Tem uns quarenta anos e o rosto detonado pelo tempo, bunda larga, olhos tristes, sorriso espalhafatoso. O Charles te pediu pra ensinar ele a lutar?
O Bronson? Não é melhor dar uma gaita pra ele?
Gaita?
Deixa pra lá.
Ensina vai.
Já tô ensinando. Mandei ele ficar quieto.
Ela me convidou pra almoçar e começou a preparar a comida. Puxei assunto com o moleque. Quantos anos cê tem?
12.
Já beijou alguma menininha?
Não.
Já bateu em alguém?
Não senhor.
Já levou algum soco?
Muitos.
Cê parece ser muito popular.
Como assim?
Deixa pra lá.
O mandei ficar em posição de defesa, ele sabia o que era isso, o fato de ter levado alguns socos era a única coisa que lhe ajudava, era fraco e debilitado, mas sabia que não era de vidro. Na luta, cê sempre tem que tentar acertar o primeiro soco, eu disse, de preferência pegar o outro cara desprevenido, de preferência acertar no rosto, no meio do queixo, um bom soco no queixo pode derrubar qualquer um, quer ver? Dê um soco no meu. e ele soltou um uppercut de esquerda desajeitado e cheio de vergonha – teria muito o que aprender. Ok, não vou te ensinar a melhorar esse soco de bosta. Assista Domingo Maior e treine nas paredes ou sei lá. Cê costuma sorrir?
Quando eu acho algo engraçado ou bonito.
Engraçado ou bonito? Ok, tente não sorrir, muito menos nessa escola que cê odeia, não entregue teus gostos de bandeja pra eles, nem os teus dentes.
Cecília interveio da cozinha. Pode parar, pensei que tu ia ensinar ele a lutar, não a ser um desajustado igual ao pai dele ou igual a você. Acho que ela tinha me falado do pai do moleque na noite anterior, quando me levou pra sua casa. Pelo jeito, era mais um durão das lutas de rua, desajustado do mundo, tendo que cravar seu lugar na vida a base de muita antipatia e narizes quebrados. Ele morreu quando Charles tinha dois anos e, provavelmente, foi quem escolheu o nome do moleque. Talvez ela tivesse razão, eu devesse ensiná-lo apenas a se defender e não a ser um filho da puta de caráter tão torto como os dentes. Mas ela pediu pra que eu o ensinasse e isso era só o que eu podia fazer.
No meio do almoço o garoto se levantou, correu ao banheiro e vomitou. Cecília culpou o tratamento. Disse que confiava em minha vitória na próxima semana pra conseguir pagar um médico. Eu não gostava que ninguém dependesse de mim, nem eu dependia mais de mim, não tinha ninguém, não tinha nada, não queria aqueles dois na minha vida, mas eu tava ali no meio porque foi o jeito mais fácil de apenas continuar e o fato de apenas continuar sem muita ambição não devia trazer responsabilidades do tipo pagar o médico do garoto com câncer, mas trouxe – levantei da mesa, subi as calças e mandei Cecília limpar a boca do moleque porque a gente ia sair pra tomar um sorvete.

Foi um dia agradável e isso me assustou. Lembrei de minha ex-mulher e minha filha, houve um tempo em que quase fomos felizes, mas estraguei tudo. Tenho uma espécie de alergia à felicidade familiar, fico tonto e cheio de náuseas e então caminho pela cidade e é como se os bares e encrencas e putas e vendedores sujos de churrasquinho de gato me chamassem pro lado deles. De noite, depois que Bronson dormiu, agarrei a bunda de Cecília e tentei beijá-la, ela me empurrou pro sofá e foi dormir e eu fiquei pensando que preciso ganhar mais lutas e descolar um quarto. Quando acordei era segunda-feira e não tinha ninguém em casa, meu olho continuava roxo mas não doía, meu corpo só doía por causa do sofá, caminhei um pouco, entrei no quarto de Bronson e me deitei na cama.
Ele voltou da escola com o nariz sangrando. Disse que não riu de nada, que ficou quieto no seu canto e, quando um dos meninos carecas solidários veio perguntar como ele tava, ele seguiu quieto, então juntaram mais dois ou três carecas na sua volta, ele não falava nada, de repente, uns oito meninos estavam em sua volta perguntando se ele tava bem, eram os mesmos meninos que tiravam onda com seu nome, Bronson seguiu quieto, perguntaram se ele tava maluco, se ele tava morrendo, ou se não conseguia mais falar, ele levantou e deu um soco no queixo mais próximo mas não chegou a derrubar ninguém, levou um no nariz e uma rasteira e caiu de bunda no chão.

Mandei ele se limpar no banheiro, ele foi e depois vomitou também. Me sentei na sala quando o moleque começou a socar as paredes, ele tava batendo forte demais, eu disse que pegasse leve, ele não pegou – não socava fazendo força com os ombros, apenas com os braços, isso não derrubaria ninguém, expliquei, mostrei uma posição, ele seguiu batendo forte e desajeitado até que uma hora se feriu e resolveu parar e sentar ao meu lado. Eu queria sair pra dar uma caminhada, só que ele não podia ficar sozinho, embora nós dois estivéssemos assim, sozinhos, Cecília ainda levaria umas duas horas pra vir e preparar o almoço. Continuamos sem falar nada até que ela chegasse.



bruno b.
http://brunobandido.wordpress.com

Não existe lugar melhor no mundo para esconder um cadáver do que a Bolívia

Por Astier Basílio

Por baixo do capuz, tentei localizar uma fresta.

Algum sinal de que era noite ou dia.

Quando a porta se abriu, reconheci o barulho das botas. Se eu me aprumasse, os punhos doíam.

“Estou pensando em morar aqui…”.

Descobri que estava em um cubículo, porque acompanhei sua respiração. Era como se, por mais que circulasse, não saísse de perto de mim. Ficamos um tempo assim: eu pressentia que ele estava ao meu ouvido. Eu respirava aquela ameaça. Não sei como ele conseguiu alcançar tamanha delicadeza com a voz quando me disse:

“Não existe lugar melhor no mundo para esconder um cadáver do que a Bolívia”.

Coloquei diante dele os números todos. A maneira de como fazer o pagamento. O cimento se desfazia com as batidas, ele devia estar com um bastão. Algo perfurava o chão. Acho que ele ria.

“Eu leio jornais, Alípio” – o chão cedeu alguns buracos enquanto ele falava –  “Sei que você recebe seis paus por mês. Dá pra viver bem, mesmo com alguém como você, com os seus luxos…”

Era inútil qualquer protesto. Eu sabia. Queria saber com quem estava lidando.  Por esta razão que joguei algumas palavras em cima dele, falei de dignidade. Fui interrompido. Ele não era um simples empregado. Eu o tinha subestimado. Achei engraçado ele tentando me imitar.

“… um português, me sinto mais brasileiro do que muitos que nasceram aqui, não tive prata nem ouro, mas o que eu tive eu doei ao povo e à sua causa, a minha vida…”

Os silêncios eram longos e perfurados. Era como se ele arrancasse minhas unhas.

“Alípio, acompanhar suas conferências, ler seus artigos e… ter acesso aos seus e-mails, não me fizeram descobrir, apenas, suas contas em sites não muito, como eu digo?, católicos… mas, o principal desta ação toda, me fizeram descobrir como você fala, quais suas palavras preferidas…”.

Argumentei que, no mundo e na vida, tudo tinha um propósito. Antes que eu citasse o versículo, a voz me interrompeu com um riso. O primeiro dele. Ao menos parou de escavar. E recitou:

“Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai”.

Ouvi o barulho da cuspida. Imaginei que haveria barulho de isqueiro. Fumaça invadindo o ambiente todo.  Quem sabe ele não me oferecia o cigarro?

Não podia mais subestimar meu inimigo.

Ou amigo.

Quis saber se poderia fazer uma pergunta.

“Não arranquei sua língua”.

Descobri, da pior forma, que as paredes eram revestidas de azulejo. Ele pegou o bastão com um prego na ponta de novo.

“… ainda”.

Entendi o recado. Era um dos nossos.  Algum louco. Algum frustrado.  Eu tinha que falar a língua dele. Entrar no delírio dele. Deveria adivinhar a razão de tudo, o ponto zero dele. Quedas de aparelhos? Das cinco vezes em que cai, segurei no tranco ao menos duas semanas. Quando dei o serviço, a rede já tinha caído. Não era por isso.

“Eu…”

Jogou o bastão no chão. Me encolhi pensando que seria atingido.

“… queria pedir a você que…”.

Um líquido agora era agitado em uma garrafa. Tive vontade de pedir a ele que me desse de beber.

“Bem… Queria que você, como um sacerdote, me perdoe…”.

Balancei a cabeça. Não. O problema não é perdoá-lo, eu disse a ele. Vocês, os crentes, se acreditam sem intermediários, com acesso direto a Deus.  Ele tirou a minha venda. Sim. Era ele.

“Bronson”.

Fazia muitos anos que alguém não me chama assim, ele me disse. Percebi que pintou o cabelo. O bigode era recente.

“Pensei que você tivesse esquecido o passado, Bronson. Quando me contaram, eles acabam contando tudo. Mesmo morando em Portugal. Ninguém acreditou. Acredita que pedi a um amigo, que tinha ido passar férias em João Pessoa, que fizesse uma foto sua no culto lá da igreja. Como é o nome, mesmo?”.

Ele me respondeu. Fuzil entre os braços cruzados. Com vagar e vigor. Pronunciou as sílabas como se saboreasse: Igreja da Bênção do Varadouro.

Senti pena quando olhei para aquele velho com bigode ridículo, uma paródia do que fora.  “Acho, Bronson, que você merece o meu perdão, sim. Eu te perdôo”.

Ele me disse que ironia era uma figura de linguagem não muito apropriada para alguém na minha situação.

“Sempre que não gostar do que eu disser, vai me bater?”.

Bronson disse que não queria me enterrar à noite. Que era melhor encaminharmos as questões. Perguntou como eu queria morrer.

“Em homenagem ao chão que estamos…”, Bronson tirou uma garrafinha de Jack Daniels do bolso e me ofereceu. Eu aceitei. Pedi que ele derramasse o scoth devagar. Ficou me encarando enquanto eu concluía a frase. “… Quero morrer como o Coronel Cornélio Rojas…”.

Pensei que ia me dar outro tapa, mas sorriu. Bronson, puxou uma cadeira, virou-a de costas. Disse que era uma boa escolha, a minha. Que não seria nada mal para mim, morrer no mesmo chão em que estava enterrado Che. Fez uma pausa. Mas da forma como Che mandou um oponente ser fuzilado, concluiu.

“Sempre imaginei, o velho Rojas, antes de morrer, pedindo ao Comandante…”, Bronson me interrompeu e, rindo, disse que o Comandante era conhecido por sua generosidade. “Pois é”, concordei. “Sempre imaginei que o Comandante teve um gesto de ternura. Talvez ele tenha criado a famosa frase ali, em Santa Clara. Deixar que o Coronel Cornélio Rojas morrasse fazendo o que sempre fez em vida: mandar. Foi lírico”.

Bronson me corrigiu: mandar não. Cumprir ordem. O último pedido de Rojas foi o de cumprir uma ordem. Mesmo que tenha sido do Governo Revolucionário. Mesmo que tenha sido a ordenamento do pelotão do seu próprio fuzilamento. Ele pediu para fazer o que sempre fez em vida. Obedecer.

“Por que está esvaziando as balas do fuzil?”.

Sem importar-se em me responder, Bronson me contou que, em 1973, a parte traseira de um fuzil automático leve, a culatra, começou a ser feita com vários tipos de metal. Reduzir custos, ele limpou o suor enquanto argumentava. Peso. O importante, Bronson continuava, alisando a coronha, é que em 1970, ainda era feito de aço.

“Capaz de afundar o crânio de alguém”, eu adivinhei onde ele queria chegar. Bronson riu, falou: bom menino. A vantagem, Bronson continuou falando, e Lamarca sabia muito bem disso, é que não causava nenhum barulho.

“Bronson…”, ele estendeu a mão e me pediu que não o chamasse mais assim, “como quer que o chame?”.

Ele falou que não queria mais que o chamasse de modo nenhum, a conversa estava no fim.

“Estou no fim de qualquer forma. Algumas das poucas coisas que me interessam na vida estão em suas mãos”.

Testando, no solo, a culatra do fuzil, como se o amaciasse, Bronson falou que não tinha tocado no meu dinheiro.

“Não falei disso”, ouvi o barulho de outro carro chegando. “Podemos fazer um bom acordo”, Bronson não disse nada, continuou me olhando forte.

“Não precisa confiar em mim”. Bronson disse: eu não confio em você. “Tenho como fazer as movimentações todas sem deixar rastro”, Bronson riu. Os olhos dele ficaram mais verdes. “Acredite, eu ainda sei como fazer… Minha conferência no Fórum é amanhã, Bronson”.

Ele atirou no meu pé, gritou que não era para chamá-lo mais assim,  e foi até lá fora. Imaginei que estávamos em um sítio. Voltou com dois galões de gasolina. Começou a molhar o barraco todo. A borrifar em mim. Falou em ternura, do seu bolso, tirou um lenço, empapou no líquido, encharcou minhas barbas.

“Por Deus, tenho 200 mil na minha conta”, Bronson parou, limpou o suor do rosto com a manga da camisa. Disse: Padre, o senhor não precisa levar mais este pecado consigo. Jogou o que sobrou dos galões na minha cabeça. Mentiu dizendo que ainda resta, pelo menos metade do milhão da sua indenização. Balançou a cabeça e mentiu de novo, desta vez fazendo insinuações. Disse: Deus, como esses meninos de hoje são caros.

Bronson pôs o capuz novamente em mim.

“Matar um ex- padre não é blasfêmia contra o espírito santo, é?”, ele me perguntou. Permaneci em silêncio.

“Vamos lá. Por mais que eu tenha me esforçado e, Deus sabe disso, eu me esforcei, nunca vou superar os seus anos de seminário. Sua formação em teologia”.

Bronson refez a pergunta, dessa vez eu respondi, balancei a cabeça dizendo que não.

“Na semana que eu bolei o plano todo, Alípio… você poderia ter, sei lá, desconfiado um pouco mais”, puxou uma fotografia da carteira. Riu. Eu ri também.

“Seria uma farra e tanto, hem?”, Bronson agora tirava os meus sapatos, as meias e ensopava os meus pés com gasolina.

“Um último comentário: você está em alta com o pessoal do Fórum? Passagem e hotel, para acompanhante dois dias antes do evento começar”, pedi a Bronson que terminasse logo com tudo.

“Ok, tudo bem, concordo que meninos de 16 anos não podem ser considerados crianças… Aliás…” – Bronson tirou colocou umas notas no meu bolso

“Aqui: o dinheiro que você depositou na conta dele, quer dizer, na minha… Não quero seu dinheiro”.

Fiquei me mexendo, queria cair no chão, quebrar a cadeira com meu corpo, tentar uma fuga, levar um tiro, acabar logo com aquilo, Bronson me conteve.

“Ontem, sabe qual foi o tema da minha homilia, padre?”, ignorei a pergunta até que ele me bateu com a coronha do fuzil, ele me perguntou de novo, murmurei algo, ele me respondeu qual foi o assunto do sermão dele: “a parábola do talento. E, não sei se te aconteceu, Alípio, alguma vez, no altar… Enquanto eu pregava para o povo, para as ovelhas, Deus falava comigo… Eu não podia enterrar o meu talento. E o meu talento…”, Bronson puxou uma caixa de fósforos do bolso e sacudiu-a próximo aos meus ouvidos, “… o meu talento é matar”.

 

Ninguém se inspira nos filmes do Bronson

Por Camila Fraga

 

prólogo

 

  • Baby, você tem 10 segundos pra implorar preu não estourar suas bolas…
  • Mas que porra…?
  • … E eu tenho 10 segundos pra não sentir pena de você…

 

O grito dum homem quando tá sendo morto, é como dum animal agonizando na estrada. A cama dele fica toda suja de sangue. Fico observando aquilo. Meu último crime. Acendo um cigarro. Tiro a calcinha e coloco na boca do filho-da-puta. Ligo a tv no canal de desenho animados. A despedida da Garota da Calcinha…

 

5 anos depois

 

  • Ana-Baby, não me olha com essa cara de gatinha pidona, eu vou te desarmar quando tu começar a olhar minhas pernas.

     

Ela ri e vem engatinhando só de calcinha pra mim. Tem aquele sorrisinho safado que bem conheço, ela tá afim de fuder.

 

  • Quero te chupar toda, amor – ela diz manhosa, lambendo minhas coxas.
  • Baby, sou toda tua.

 

Ela puxa minha calcinha pra baixo e começa a me lamber. Ana-Baby sabe bem onde tocar aquela língua. E sabe bem quando tô perto de gozar. Ela dá um bom beijo de língua quando termino e vem beijando toda minha barriga, meus peitos, até chegar em minha boca, onde sussurra:

 

  • Assaltei um caminhão da Burguer King hoje.

 

Dou risada.

 

  • Pra que diabos?
  • Temos a carne do Burguer King agora.

 

Aquela putinha era a melhor em assaltar supermercados. Nem o Carrefour conseguiu escapar da sua manha. Por isso eu curtia essa garota. Ela era uma gracinha cheia de coragem.

 

  • O Carlos ligou hoje, Lou – ela disse.
  • Quê?
  • O Carlos, teu ex-namorado.
  • Pra que merda?
  • Disse que vocês têm assuntos a tratar. Ele vem aqui umas nove da noite.
  • Que espécie de vadia é você? – gritei, levantando. Ela se encostou na parede, assustada. Eu nunca tinha gritado com ela antes.
  • Que foi, Lou? Que eu fiz?
  • Porra, Ana! Vai tomar no cu!

 

Vesti minhas roupas e peguei minha carteira de cigarros. Resolvi caminhar um pouco enquanto fumava. Eu sentia uma raiva filha da puta crescendo dentro de mim. Passei por uma mercearia. Apaguei o cigarro e entrei. Tirei a arma da bolsa e apontei pro caixa.

 

  • Hey, baby, acho melhor você me passar tudo antes que eu exploda teus poucos miolos.

 

Os clientes se abaixaram, gritando. O caixa deu risada.

 

  • Uma mulher?

 

Atirei numa garrafa de Jack Daniel’s. Ele se mijou todo. Abriu o caixa e me passou a grana.

 

  • Coloca num saco três garrafas desse whisky e mais três de gim.

 

Ele empacotou tudo rápido. Dei mais um tiro numa garrafa de vinho branco.

 

  • Esse aí é pra aprenderem que vinho branco é coisa de pau no cu! O Jack foi puro egoísmo.

 

Sentei numa praça e abri uma garrafa de Jack. Acendi outro cigarro. Tava afim de esmurrar aquele lindo rostinho da Ana. Aquela putinha de merda. Eram oito da noite quando terminei a primeira garrafa. Era um caminho razoavelmente longo de volta pra casa. Quando entrei, coloquei as bebidas na mesa da cozinha. Gritei prela: “ei, sua puta, trouxe gim pra você”. Ela num respondeu.

 

Fui pra sala e ela tava de quatro sendo comida por Carlos.

 

  • Ei, seus filhos da puta!

 

Ana-Baby caiu no chão assustada, ela quase chorava. Pela perna descia um mijo amarelo. Empunhei a arma.

 

  • Seu merda! A minha mulher não! – fui pra cima dele e meti a arma no seu rosto. Ele foi pra cima de mim, me segurou pelos pulsos.
  • Grande merda, sua puta! Ou tá esquecida que foi você que matou o DJ? Ele era meu melhor amigo, porra!

 

Carlos meteu a mão em meu rosto. Fazia cinco anos que eu num falava com ele. A gente tinha brigado por alguma merda e ele descobriu que eu era uma matadora de aluguel. Eu apanhei aquela noite. Eu amava aquele imbecil. Prometi a mim mesma que jamais ficaria com um homem de novo.

 

  • Lou, me desculpa…! – Ana chorava no chão, encolhida.
  • Eu só quero atirar na sua cabeça, Ana! Então cala essa boca, antes que eu fique mais puta com a sua cara!
  • Não fala assim com ela! – Carlos gritou. Ele me olhou nos olhos. Aquilo foi escroto. Eu quis atirar na hora. – Como eu posso amar tanto você, sua puta?

     

    Ele meteu a mão em mim de novo. Afundei a arma em seu ombro. Ele gritou. Segurou a arma e jogou pra longe. Me agarrou os pulsos e puxou minha calcinha pra baixo. Quando ele me encostou na parede, seu pau já entrava em mim com força. Eu gostava dele dentro de mim. Ele lambeu meu pescoço. Quando olhos em meus olhos e disse que eu era a putinha mais gostosa do mundo, ouvi um disparo. Um monte de sangue respingou meu rosto. Ele caiu no chão. Seu crânio tava destruído.

 

Ana-Baby tava completamente nua, os cabelos desgrenhados e o rosto todo molhado de lágrimas com a arma em punhos. Olhei pro corpo no chão e depois prela. Ana nunca tinha atirado em ninguém.

 

  • Oh, baby… – murmurei.
  • Ninguém toca em você! – ela gritou.

 

Eu tirei minha calcinha e coloquei na boca de Carlos. Liguei a tv num desenho animado. Pegamos as garrafas que roubei mais cedo, arrumamos nossas coisas e fomos embora. A Garota da Calcinha tinha voltado. E pra surpresa de todos, eram As Garotas dessa vez.

Charles Bronson matava punks

Por Daniel Feltrin

 

Charles Bronson matava punks.

“Crazier than GG,
More PC than Ian.
Got colored teeth like Johnny,
Exudes a vicious disposition.
His hair sticks out like Colin’s did, he jumps,
Similar to Springa, he points his middle finga.
Not just he singer in the band.
Voted biggest asshole, and role model of the year.
Got a face like Charles Bronson,
Straight outta Green Bay Wisconsin,
Not just a singer in the band.
He’ll puke on you, he’ll fuck your mom,
He’ll smoke while huffing gas.
He was the punkest mother fucker I ever did see.
‘Ah Hell he’s even more punk than me.’
He should’ve been on the cover of Punk and Disorderly”

–– NOFX, Punk Guy

 

DIZEM que o punk Bronson tinha apenas a bola esquerda. A direita havia sido chutada para cima numa briga de rua em 95. Não sei dizer se isso é verdade. Eu não tive coragem de assistir à autópsia do seu corpo e o legista simplesmente não examinou o escroto do homem, e se por um acaso o fez, a irrelevância daquele aleijamento para a causa mortis o fez ignorar a observação no relatório. De modo que apenas eu devo saber disso. Não que isso seja importante para alguém além de mim, obviamente, mas a história é interessante: alguns dizem que a briga foi motivada por uma pequena divergência de opiniões. Bronson achava que o Cólera era a banda que ainda mantinha a bandeira da cena punk paulistana. O seu oponente, um garoto de 15 anos com um moicano vermelho mais alto que a própria extensão da cabeça, afirmava que a cena brasileira nunca valera nada. É difícil dizer. Eu não estava lá para ver. Na verdade eu era um garoto de 10 anos na época em que o rapaz deu entrada no hospital em que meu pai trabalhava com a camiseta do Rancid toda ensaguentada. Foi a primeira vez que eu vi tanto sangue na vida real. Os amigos do rapaz entraram dizendo “Foi o Bronson, foi o Bronson!” e eu, que havia alugado todos os Desejo de Matar escondido de meus pais, imaginei que o Paul Kersey (que na minha cabeça infantil era o nome real de Charles Bronson) havia finalmente mostrado a cara. De modo que, vocês sabem, o punk Bronson era meio penso. Sim, porque de fato, com metade das bolas, ele dividia o espaço do seu ser portentoso com o vazio que essa falta causava. De modo que, vocês veem, com esse nome, Charles Bronson Feliciano da Silva, o punk Bronson dividia sua identidade com outro. Ou seja, ele era a metade escura de uma identidade violenta. Pode parecer loucura, mas eu acho que isso foi o que o matou.

Isso e a falta da bola esquerda sem dúvida nenhuma. Vocês veem, o punk Bronson era penso.

No fundo o maior problema era um gap de geração. Nas minhas pesquisas sobre a vida do punk Bronson não encontrei muitos fatos concretos, mas a mitologia em cima disso parece apontar para essa direção. Bronson nunca se entendeu com ninguém mais velho ou mais novo que ele. Bronson parecia pertencer ao fim dos 70 e aos anos 80. Uma de suas canções, a famigerada “Volto ao Tempo da Anarquia”, um hino do punk rock paulistano, Bronson berra no refrão para que “parem os usurpadores da vida real”. Toda vez que ouço esta canção me pergunto quantas vezes o punk Bronson gritou isso para si mesmo, tentando dar algum sentido à sua própria realidade.

Sinceramente? Não sei. Não sei nem mesmo se alguém poderia saber de tal coisa, se alguém teria tanto acesso ao punk Bronson para saber quais suas reais intenções, quais suas significações para tudo. De certa forma, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, e nisso eu acredito piamente, eu fui uma das pessoas que mais o conheceu intimamente.

Certa vez, à ocasião de sua morte, enquanto eu a investigava, entrevistei sua mãe, e aí tive certeza que o problema do punk Bronson era um gap de gerações. Vocês veem, a mãe de Charles Bronson Feliciano da Silva havia nascido em 1952, portanto tinha apenas 16 anos quando deu à luz o pequeno Bronson. Seu nome é Shirlei Temple Rosa e foi casada com Augusto Rey Feliciano da Silva tempo o suficiente para o punk Bronson matar o pai de desgosto (engasgado com uma asinha de frango) ao aparecer pela primeira vez de moicano em casa em 1983, quando tinha apenas quinze anos.

Shirlei odiava seu nome e toda a fofurice que ele trazia de modo que, quando viu aquele homem misterioso que tocava gaita num faroeste que vira no cinema, decidiu que seus pais deviam aprender como nomear um filho em uma homenagem cinematográfica. Cachos eram horríveis, e olhos azuis profundos emaranhados numa melodia enigmática dos foles de uma gaita eram a beleza traduzida na Terra.

Vocês veem, era um problema de gap de gerações. Do punk Bronson com seu pai, e do garoto da camisa do Rancid com o punk Bronson. Da mãe do punk com seus próprios pais, por sua vez, e do punk com suas mães, pois era conhecido por todos que o punk odiava seu nome, pois apenas conheceu o Charles Bronson que matava punks e não o Charles Bronson/Harmonica que era em si a beleza. Há quem diga que Bronson se tornou punk justamente por isso: para negar sua natureza, sua identidade em conflito. Botou o pé na estrada aos dezesseis, compôs um disco, nomeou sua banda com seu próprio nome e fez seu caminho nas lendas urbanas de São Paulo para sempre com a identidade de sua contraparte hollywoodiana.

Isso tudo, pelo menos, aos olhos de um garoto que cresceu em um hospital em meio aos acidentes e aos crimes sangrando e frente aos olhos. De modo que, meu gap de geração com o punk Bronson é justamente ele ter me inspirado sem querer naquele dia em 1995: era a negação de tudo aquilo que justamente afirmava. O Paul Kersey. O Charles Bronson.

É preciso pensar. É o que eu tento. Vocês veem, o Bronson era incompleto e continua sendo. Pensemos.

Pensemos.

Em 2003, quando o corpo de Bronson foi encontrado numa espécie de vitrine simbólico santificadora, a imprensa caiu em cima do caso com uma cobertura rasteira. O oportunismo rotineiro era evidente, e a ficha criminal de Bronson foi levantada, exposta, vendida em banca de jornal e sacralizada como prova cabal da sua culpa. O caso, como não poderia deixar de ser, chamou a atenção do público em geral, pois afinal não é todo dia que um corpo é encontrado crucificado no meio do viaduto do chá sem chamar a atenção de ninguém.

Foi uma festa. Os corvos todos se refestelaram na carcaça de Bronson. Lembro-me do asco que senti. Lembro-me da raiva.

Então resolvi fazer algo a respeito.

Na época, eu me formava em jornalismo e era um apaixonado pela reportagem criminal. Todos os vícios, os cacoetes, todas as características do jornal estilo pulp fiction me atraiam contundentemente. Eu era um defensor do recrudescimento do sistema penal. No entanto, eu odiava as leis. As leis não serviam de nada para prevenir os crimes, muito pelo contrário, tudo o que eu via eram as leis soltando bandidos e prendendo cidadãos de bem. Eu estagiava há alguns anos num jornal de pequena distribuição chamado Diário do Hoje, em que a sessão policial, onde eu trabalhava, era o principal atrativo. Apesar do alcance pequeno, as notícias tinham um público cativo, como a minha primeira missão que foi revelar ao público geral a verdade sobre o caso de um comerciante injustiçado por ter se vingado dos assassinos da sua filha. O homem nunca havia cometido um crime e pagava todas suas contas em dia, mas mesmo assim foi crucificado pela mídia como se fosse um reles bandidinho e não apenas tentasse defender sua família. Lembro-me que na mesma época um deputadozinho qualquer saíra ileso de uma acusação de desvio de verbas milionário e lavagem de dinheiro no crime organizado. O mesmo crime que provavelmente matara a filha do comerciante que tentou fazer justiça.

Era incompreensível.

Então, quando o punk Bronson foi assassinado, eu estive entre os repórteres todos, mas diferentemente de todos eu entendi perfeitamente o que aconteceu ali. A cena era bizarra, melhor dizendo, a cena era apoteótica. Talvez a perfeita encenação do fim do punk Bronson. Talvez fosse o que ele queria. Ainda assim, o cheiro… é. talvez tenha sido o cheiro, mas também todo o resto: corpo nu, cortes de estilete com expressões enigmáticas como “onde está a dor agora?” ou “as moscas também sangram”, como as mais obscenas como: “enfie o moicano no cu”, ou “apodreça no inferno. No entanto, o que mais me assustou foi o rosto impassível de Bronson. Ele estava ali, nu e trespassado por estacas, todo cortado e pregado numa cruz de ponta cabeça pendurada no viaduto; o moicano desarmado caía esvoaçando no vento, mas mesmo assim seus olhos e boca continuavam fechados como se o punk Bronson apenas dormisse. Num poster que ele possuía em seu quarto (o punk Bronson morava num daqueles prédios abandonados entre a estação da Barra Funda e a da Júlio Prestes), encontrei um poster de um punk chamado G.G. Ailin que morrera jovem também. Nesse poster, Ailin estava em seu caixão usando apenas uma cueca e uma jaqueta, rodeado de seus pertences favoritos e uma expressão de indiferença quase lacerante. A mesma que Bronson usava. Aquilo me assustou muito e comecei a tirar fotos de todos os ângulos que depois chequei antes de escrever. Cada frase e cada marca era um mistério para a imprensa explorar. Cada marca e cada frase era um sinal de vingança e de ódio perpetrado por um grupo de muitos, concluiu a polícia, abandonando o caso em poucos meses, a despeito da cobertura massiva da crítica. No entanto algo me chamara a atenção. Algo que escapara aos olhos de todos. No chão, escrito em sangue estava a inscrição: Kersey wuz Here.

Aquilo me perturbou por um instante até eu fazer a ligação. Depois disso foi fácil interrogar os punks, ex-integrantes da banda de Bronson, se eles conheciam algum Kersey. No começo eles foram relutantes, mas quando eu lhes mostrei a camiseta do Rancid manchada de sangue, eles entenderam que não era nenhum gambé ou algum careca que tentava buscar informações para ferrá-los ainda mais. Com alguns resmungos eles confirmaram que o garoto, que havia deixado o punk Bronson, penso para o resto da vida, havia finalmente o encontrado de novo para terminar o trabalho. Ele era um moleque skinhead que havia adotado o nome de Kersey depois que saíra do hospital com problemas de fala. De repente então me vi como seu igual. Alguém da mesma forma influenciado por Bronson, pelos dois Bronsons, pelos erros dos nossos pais, pela falta deles, pelos anos 80 e pelo fim do mundo. Pela violência de existir. E então eu entendi.

Não venham atrás de mim, eu provavelmente não voltarei. Publiquem isso e apenas assinem: Kersey wuz here.

(texto deixado na redação do Diário do Hoje, pelo jornalista XXXX, encontrado dois meses depois de seu desparecimento, em 2003.)